Passeei pela avenida, com os pés descalços. Estava vazia, como em nenhuma outra segunda. O céu tinha cara de domingo, como a rua mas um domingo de março, com seus rios voadores. não era março, nem domingo, mas tinha essa cara simpática a chuva varria a sujeira, as inibições e as angústias para as bocas de lobo. um toró revigorante surrava as palmeiras, e as minhas costas. também surrava as memórias. E os rios. também os sem-teto. E os cães de rua. as latas não sentem, os vira-latas sentem até demais. Não tenho pedigr...
por trás desse muco debaixo da ossada e do músculo entre as artérias menor que a veia cava e os fios de cabelo cá estou eu vendo tudo mexer ouvindo as polias rodando o encontro das cartilagens rangendo o arrepio e as dores fantasmas o toque que marca e o que mal trata a pele sensível ao tato latejante o beijo mais em baixo a trinca do fêmur e do peito moro aqui de inquilino e pretendo ficar até quando der
Morar em capital está fora de cogitação. Sei por que já visitei algumas. Não é repúdio, nem inveja. Também não é falta de ambição. Algo que definitivamente me incomoda são os prédios. Verticalmente majestosos, rasgando o seu espaço na malha urbana, com terraços que furam as nuvens. É inevitável imaginá-los caindo sobre a minha cabeça, tombando com todas as suas toneladas cinzentas, esmagando o pouco que sou. Seria como uma torre negra comer um mero peão branco, no xadrez de concreto. O pensamento é até improvável, mas incomoda o suficiente para instigar uma constante sensação de fraqueza diante do imenso. Não raramente, ela se agrava, e toma a forma do que só cabe na definição de um excêntrico medo de altura. Um temor, não de estar sobre, mas sob, algo com inúmeros pés de tamanho. É um estado ironicamente sufocante. Outra coisa enorme são as ruas. Grandes rios secos, recheados de canoas motorizadas. Mas, do que adianta a extensão, se há tantos pescadores? É mais fácil ser f...
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